Cientistas mulheres

Como é ser uma cientista mulher no Brasil? As pesquisadoras respondem

Perguntamos a quatro pesquisadoras renomadas sobre a experiência delas enquanto mulheres no mundo acadêmico. Entre pressões envolvendo maternidade e a necessidade de se impor diante de colegas do gênero masculino, cada uma tem uma boa história para contar. As respostas você pode ver abaixo, junto com dados relativos à mulher na ciência, fornecidos pelo portal Gênero e Número.

Profª. Dra. Maria Aparecida Visconti
Houve uma época que fazer carreira como mulher na área de Ciências Biológicas era mais complicado. O salário costuma ser igual, sem diferença para cargos como costuma ter na iniciativa privada.
Eu me lembro de um episódio no começo da minha carreira.
 
O ano era 1981. Eu havia acabado o meu mestrado em Ciências na área de Fisiologia Geral, pela USP, e estava em busca de uma vaga para dar aula. A oportunidade surgiu em dobro: eram duas vagas para docente da USP.
 
Eu prontamente me candidatei para a vaga. Não só eu, mas outros quatro colegas, duas mulheres e dois homens. A resposta foi dura: o chefe do departamento da época disse abertamente que preferia ter homens no cargo. As duas vagas foram preenchidas pelos homens.
 
Tiveram outras situações envolvendo concursos que para mim foram marcantes. Do tipo de você prestar concurso, comparar os desempenhos e qualificações e não compreender os motivos de não ser contratada. É algo subliminar, em que você tem que sempre provar que é capaz.
 
Eu nunca tive, por exemplo, episódio de assédio na minha carreira. Mas já ouvi muitos os casos e sei que é algo que existe. É algo que não se espera que aconteça na área acadêmica, mas que acontece e que temos que denunciar.

“Apenas 27 mulheres haviam chegado à modalidade de Pesquisador Sênior, de um total de 112.” (Gênero e Número)

De modo geral, acredito que haja de fato algo cultural muito forte. Uma barreira difícil de ser vencida e que às vezes nem percebemos que existe. No meu caso, por exemplo, eu tive familiares professores, então já foi uma questão mais simples de lidar. Afinal, já tinha contato com a área acadêmica. Mas para quem vem de classes menos favorecidas, essa carga cultural é ainda mais arraigada. Quem é a primeira mulher a entrar na faculdade, por exemplo, isso é ainda mais forte.
 
Às mulheres que estão na área acadêmica eu posso dizer que vocês devem perseverar. Temos muitos obstáculos. Envolvendo a própria carreira como pesquisadora. Tem que trabalhar, não deixar se abater. Tenha um objetivo lá na frente e trabalhe.
Drª Ana Paula Canel Bluhm
 
Eu nunca senti barreiras por ser mulher especificamente. Mas por ser mãe, sim.
Quando eu engravidei, eu estava ainda no primeiro ano de faculdade e você consegue sentir os olhares julgadores sobre você que diziam “ih, não vai chegar ao fim da faculdade”. E cheguei.
Quando eu me formei, já diziam que eu não conseguiria entrar no mestrado. E eu entrei. “Ah, mas no doutorado não chega”. Cheguei.
 
Quem é mãe, e isso é um papel inerentemente feminino, sente o tempo todo esse julgamento.
 
Há também as pequenas coisas do cotidiano que o fato de ser mãe se transforma em um fator limitante. Era difícil eu conseguir uma bolsa de estudos por exemplo, porque achavam que eu não seria capaz de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
 
E eu era. Durante a minha trajetória como cientista, eu tive que, além de estudar muito, trabalhar para ter o meu sustento e ser mãe. Era uma tripla jornada diária. Trabalhei durante um bom tempo à noite assinando livros e escrevendo prescrições em farmácias.
Não é a toa, que a minha filha praticamente cresceu no laboratório. Porque qualquer coisa que saía da minha rotina, desestruturava tudo e eu tinha que leva-la comigo.
Isso muitas vezes me fazia ser um peixe fora d’água. Boa parte das minhas colegas, orientadoras, chefes de departamento escolheram não passar pela maternidade. E as que escolhem, geralmente o fazem muito mais tarde, quando já tinham a carreira mais definida.

“Aos homens foram reservados R$ 110,7 milhões em 2017, 32% do total de auxílios. Já para as mulheres, praticamente metade do valor. Apenas R$ 57,6 milhões foram gastos em bolsas de produtividade de pesquisa, 18% da verba que o CNPq concedeu a bolsistas mulheres.” (Gênero e Número)

Eu tinha uma discriminação muito grande por conta disso. Somado ao fato de eu ter uma posição muito forte de eu ter entrado na academia mais velha, com 24 anos, o julgamento quanto a minha capacidade era enorme.
 
A pressão, aliás, não é só proveniente do mundo acadêmico. É em vários locais da vida, da família, dos próprios filhos, para estar presente. Porque a gente fica 90% pensando no trabalho que tem que fazer. Foi assim nos meus estudos e como professora.
 
Eu sempre tive um apoio muito grande do meu marido, que sempre dividiu as tarefas comigo. E sei que isso é raro. Não só dele, mas da minha mãe, dos colegas de trabalho. Mas principalmente dele. Entretanto, ele nunca teve essa cobrança no mesmo nível. Muito pelo contrário. E isso acho que desestimula muitas mulheres a continuarem nessa carreira.
 
Por que há uma competição muito grande. Hoje tem muita gente com mestrado e doutorado e não há vagas e bolsas para todo mundo.
 
Hoje em dia vemos muito mais mulheres em cargos de chefia. Lembro que os chefes de departamento e de comissões eram todos homens. Hoje a grande maioria é mulher. O corpo acadêmico mudou e hoje tem uma presença feminina muito grande. Então é possível ver essa mudança.
 
Entretanto, não são em todas as áreas. Há algumas áreas, com predominância mais masculina, ser cientista mulher significa abrir mão da feminilidade. É preciso ter uma postura masculinizada, se impor como um homem. Nessa área, filho nem pensar.
 
Hoje a minha filha quer ser cientista. Sei que é influência minha. A única coisa que falo é que tenha filhos mais tarde. É o meu conselho. No mais, é lutar bastante como em todas as áreas.

Profª. Drª. Regina Pekelmann Markus
Eu discordo da percepção de que não há oportunidades iguais. Nossas mulheres tiveram e continuam tendo uma atuação importante, com inserção internacional. Ao menos na área em que atuo, as oportunidades existem independente do gênero. Acho que sobre a questão da mulher no Brasil, as oportunidades existem até mais que em muitos países.
 
Claro, homens e mulheres são seres diferentes, com capacidades e raciocínios diferentes. Mas isso não quer dizer que seja melhor ou pior. E precisamos respeitar essas diferenças. A igualdade de pensamento é burra e amorfa. O que compõe a cientista e o cientista, apesar das diferenças e posicionamentos políticos, é o pensamento disruptivo, o ineditismo, a novidade.
 
Sendo assim, o que mais me preocupa, e que precisamos questionar, são as questões de modelo. Precisamos de mais modelos de mulheres cientistas. Ser cientista, mas não deixar de ser mulher. Não acredito que devamos ser os homens, fazer o papel do homem. Não acho isso positivo. Devemos ser mulheres e ser cientistas. Assim, podemos ser mais bem sucedidas.
“‘Efeito Matilda’: fenômeno inicialmente descrito pela sufragista norte-americana Matilda Gage em 1870: a invisibilização de pesquisadoras mulheres em laboratórios, que têm seu trabalho atribuído aos colegas homens.” (Gênero e Número)
Quanto às oportunidades, elas existem. O motivo pelo qual muitas mulheres não conseguem ir à frente na carreira científica, produzindo assim um gap entre as mulheres que entram na graduação e que chegam ao doutorado é que é algo que precisa ser analisado. Existe um leque variado de opções para as mulheres, que envolvem, por exemplo, constituir família. É algo que não existe para os homens, que por outro lado, possuem a pressão de ser o provedor.
 
Eu sei por conta própria que eu tive uma condição de vida e relação pessoal com o meu marido no qual a vida profissional era tão importante quanto a dele.
 
Eu tinha um casamento que permitia que tudo pudesse acontecer, no qual eu poderia ser o que queria. É claro que isso tem influência. No meu caso específico, eu me formei muito cedo, me casei muito cedo e doutorei muito cedo e tive o apoio do meu marido.
 
Eu tinha uma filha por exemplo e estava esperando o segundo e em algumas situações eu ficava sem condições de dar continuidade na carreira. Pensei até em ficar em casa, mas ele disse “de jeito nenhum”. Isso foi muito importante. Na época foi uma loucura e isso acontece com todo mundo. Entretanto, acredito que tudo depende de posturas de vida. A busca por algo a mais.
 
Lembro que na década de 60, as mães aplaudiam as filhas que saíam de casa e buscavam sua liberdade financeira. Sinto que eram mais aguerridas por esse objetivo que hoje. Hoje vejo um movimento contrário, de jovens que escolhem ficar em casa.
É um pouco como aquele poema do Edgard Alan Poe, que falava de um personagem que via tantas cores, ouvia tantos sons e sentia tantos aromas, que o desejo dele era ficar em um quarto escuro.
Drª Silvia Beatriz Bocardin
Eu não lembro de ter sentido muita dificuldade por ser mulher. As dificuldades que senti sempre foram inerentes à carreira científica no Brasil, que sempre foi difícil e agora com esses vários cortes que sofremos, a tendência é que piore cada vez mais, com a concorrência sendo cada vez maior.
 
Como eu tive boa parte da minha carreira acadêmica construída fora do país e voltei com uma carga grande, já em outro patamar, e nunca tentei galgar outros tipos de carreira eu nunca me senti impedida de fazer algo.
 
O que de fato precisamos, e que seria benéfico para a produção de conhecimento é de mulheres em pontos estratégicos, como em cargos de chefia, por exemplo.
 

O que acredito que seja importante, e acho realmente que isso é um ponto fundamental nas vidas de muitas colegas, é a questão da maternidade. Eu tive essa opção de vida de não ser mãe para dedicar a minha vida de forma integral à minha carreira acadêmica. E não é algo trivial, você não tem como substituir o papel da mãe.

“Em Engenharia e Computação, são 4,9 mil pesquisadoras do CNPq em todo o país, 36% do total neste campo. Já em Ciências Exatas e da Terra, elas são apenas 34%, com 7,2 mil representantes. Em todas as outras áreas, existem mais cientistas mulheres que homens. Os destaques são as áreas de Saúde (68%), Linguística, Letras e Artes (64%) e Biológicas (61%)”. (Gênero e Número)
Essa é uma escolha difícil que tem que ser feita e que todas as mulheres precisam estar cientes que isso acontece, que irão passar por essa situação várias vezes durante a carreira.
 
Mas o que eu digo para as mulheres que estão começando é que batalhem. Invistam na carreira, que é algo que realmente precisa de investimento de tempo e de esforço. As mulheres que optam por ser mães, muitas acham que não conseguem, mas é impressão. É possível sim chegar alto na carreira. Mas é preciso tentar sempre.

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