Clínica Médica

Cinco coisas que todo clínico geral precisa saber

Autora de livros que abordam a prática médica, Elizabeth Muxfeldt fala sobre o que todo médico deve ter para ser um bom profissional na área

Com 35 anos de clínica médica, Elizabeth Muxfeldt é mais que uma referência quando se fala em clínica médica no Rio de Janeiro. Doutora em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005), Muxfeldt atua como professora universitária e médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de ser uma das autoras do livro Ambulatório de Clínica Médica – Experiência do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, cuja segunda edição está em preparação para ser lançado.
 
Defensora de um atendimento humanizado, Muxfeldt defende a prática da pesquisa como forma de complementar a assistência médica e exercitar o olhar crítico do profissional com relação a tratamentos e diagnósticos. Sobre o ensino, ela é taxativa: “Aprendo mais com meus alunos do que eles comigo”.
 
Veja as dicas de Elizabeth Muxfeldt sobre como ser um bom clínico geral.
Exercite a visão global do paciente
 
A grande diferença para o clínico geral é a forma que ele olha para o seu paciente. Ao contrário do especialista, que investiga os sintomas específicos de determinado aparelho do corpo humano, o clínico geral precisa ter uma visão global do paciente e dos sintomas, vê-los como parte de um todo. Claro que os especialistas são importantes. Aliás, são fundamentais para ir a fundo no tratamento de doenças que afligem o local da respectiva especialidade.
 
Entretanto, é a visão do todo na detecção dos sintomas que ajudará a orientar o paciente para qual caminho ele deve seguir. Até para evitar uma verdadeira via crucis do paciente, fazendo com que ele faça diagnóstico atrás de diagnóstico, exame atrás de exame, até saber o que lhe ocorre.
O primeiro contato é tudo
 
O primeiro contato é o mais importante e precisa ser bem realizado. Ouvir o histórico médico, colocar-se próximo a ele são passos essenciais para entender o que seus sintomas podem significar e quais exames pedir. Nos meus 35 anos como clínica, entendo que é desse contato que saem 80% dos diagnósticos.
 
Por ser mais completo, o exame clínico permite detectar uma série de outros possíveis problemas. É uma relação diferenciada, mais humana, não especificamente a um sintoma ligado a um determinado aparelho. Por isso é importante que a primeira abordagem precisa ser do clínico geral. Pois esse primeiro contato que vai ajudar, tanto o paciente a procurar o especialista correto, quanto ao próprio especialista que poderá investigar a fundo os sintomas.
A vivência prática é fundamental
Nada substitui a vivência do dia-dia. Ela é fundamental para se tornar um clínico geral completo. É preciso saber como funciona uma enfermaria, como é estar na parte laboratorial, acompanhar o dia-dia do paciente, estar presente na emergência ou na terapia intensiva, todas as complicações que se possa ter, lidar com o pré e o pós operatório… Todas essas etapas fazem com que o profissional cresça em todos os sentidos.
 
Um residente que pretende ser clínico geral precisa viver intensamente essa experiência do hospital. Não é a toa que os nossos residentes passam dois meses tendo experiência no pós operatório, por exemplo. Exatamente para ter esse contato, aprender e sempre aperfeiçoar no acompanhamento dos pacientes.
A pesquisa é complementar à assistência do paciente, não a abandone completamente
A experiência na pesquisa clínica muda completamente a a vivência de qualquer médico e é sem dúvidas muito importante na formação. Como pesquisadora, eu vivi muito isso e posso dizer com certeza: a assistência e a pesquisa andam lado a lado, de forma complementares.
 
Você, enquanto médico, pode até não virar um pesquisador, mas ter esse espírito crítico e questionador que se assimila durante a prática da pesquisa clínica é um grande diferencial que acompanhará o clínico geral por toda sua carreira. Saber se a grande novidade do momento em relação tratamento pode ou não ser aplicada na prática é mais que uma obrigação, mas também o tipo de prática que eleva a capacidade enquanto profissional. Por isso, um bom médico, seja ele qual for, precisa ser curioso, estudioso e ter visão crítica e sempre estar atento às novidades.
Ensinar lhe ajuda a crescer
Posso dizer com toda a certeza: eu aprendo mais com os meus alunos que eles comigo (risos). Aliás, aprendo o tempo todo. E isso se deve muito pela responsabilidade de passar o conhecimento para outra pessoa. Quando se está ensinando alguém, isso te impede que você tenha ações mecânicas. Não existe essa de prescrever “alguma coisa” porque leu em “algum lugar”. Você tem que saber o motivo de todas as suas escolhas e ações. Precisa ter razão para os argumentos e toda a informação possível para passar aos seus alunos. É necessário estudar e buscar as melhores informações.
 
E isso é aguçado de forma muito clara quando se está ensinando. O questionamento deles te fazem questionar as suas verdades também. É um crescimento muito importante que nos mantém em movimento. Mais que isso, lhe permite sair da zona de conforto.
Elizabeth Muxfeldt
 
Doutora em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005). Atualmente é médica da UFRJ, responsável pela Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) e Monitorização Residencial da Pressão Arterial (MRPA) no Programa de Hipertensão Arterial – ProHArt do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. Professora titular de Propedêutica Médica da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenadora do LapARC – Projeto de Avaliação de Risco Cardiovascular em moradores da Lapa e Arredores.

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