Entrevista RBGO

“Queremos ser referência na América Latina”, diz diretor da Febrasgo sobre a indexação da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia na Web of Science

Diretor científico Marcos Felipe fala sobre a indexação da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) na Web of Science e os planos para o futuro da revista científica

A indexação da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) na plataforma Web of Science no início deste ano não pegou de surpresa o diretor científico da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Marcos Felipe Silva de Sá.
 
Já há alguns anos que a entidade responsável financeira e institucionalmente pela publicação tem investido na profissionalização dos processos da Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. A tarefa, capitaneada por Marcos Felipe, contou com um homérico esforço em equipe para passar por todas as etapas do processo que levou três anos para ser completado. O objetivo: fazer do periódico uma referência da área na América Latina.
 
Esse e outros planos foram abordados nessa entrevista com o presidente da Febrasgo que você pode ler abaixo.
Qual a importância dessa indexação para a revista e para a área de estudo no Brasil?
A nossa revista já tem 40 anos. Mas até fevereiro de 2016, ela não tinha um alcance internacional. Passou a ser editada em inglês, passo inicial para a internacionalização e indexação, buscando seu Fator de Impacto. . Sem essas qualificações , ela tem pouco valor para os pesquisadores, pois em geral eles buscam publicar suas pesquisas em revistas editadas em inglês e com Fator de Impacto.
 
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – ligada ao MEC que faz as avaliações de cursos de pós-graduação do Brasil, . leva muito em conta onde os professores /orientadores publicam seus artigos. A CAPES avalia as revistas utilizando como um dos principais critérios ( Sistema Qualis de avaliação dos periódicos) o “Fator de Impacto” . Neste contexto, temos uma dificuldade muito grande de fazer com que a RBGO se torne relevante para a CAPES, pois os melhores trabalhos nacionais em Ginecologia e Obstetrícia vinham sendo publicados em revistas no exterior . Há necessidade de termos um Fator de Impacto.
A indexação em uma plataforma como a Web of Science é tão importante porque atrai o olhar dos pesquisadores/orientadores , aumentando o interesse na divulgação internacional de suas pesquisas e, consequentemente, valorizando a revista, É, portanto, uma espécie de ciclo vicioso. Quanto maior o fator de impacto, mais ela é buscada pelos grandes autores e quanto mais os grandes autores procurarem a revista, mais valorizada a revista será.
 
Já possível verificar alguma mudança “pós-indexação”?
 
Há algum tempo nós já percebemos um aumento, tanto na quantidade quanto na qualidade dos artigos dos autores que procuram a revista. Este ano já tivemos 130 submissões de manuscritos , com um índice de aprovação da ordem de 25%. O que significa que nosso corpo editorial e revisores estão tendo um maior rigor na seleção desses artigos. Isso naturalmente joga para cima a qualidade das nossas publicações.
Além disso, estamos trabalhando a profissionalização da revista, desde a edição de textos em inglês, assim como todo os processos de editoração de forma eletrônica, utilizando o sistema ScholarOne , que permite monitorizar cada passo e o tempo que cada manuscrito percorre , desde a sua submissão até a sua publicação.
 
Se tivermos fator de impacto, muito provavelmente os autores nacionais considerariam em enviar as suas melhores publicações para Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Estivemos em regime probatório no Emerging, que monitora a revista em determinado período e o ganho que tivemos em direção a atingir o fator de impacto foi significativo.
 
Como a indexação da RBGO influencia nas publicações científicas no Brasil?
 
Tudo passa pela qualidade das publicações. Quanto melhor o trabalho publicado, maior é a nossa exposição. Acredito que o que precisamos é que nossos artigos sejam tão competitivos quanto os artigos publicados nas grandes revistas internacionais
Posso dar um exemplo. Lembra que alguns anos atrás houve o surto do zika vírus no Brasil? Autores brasileiros foram os primeiros a descrever sobre a relação entre o Zika vírus durante a gravidez e a microcefalia. E onde foram publicados esses estudos? Os principais no exterior. As revistas internacionais quando souberam dessas informações se associaram aos pesquisadores brasileiros para continuar essas pesquisas e publicá-las no exterior. Os melhores resultados foram publicados nessas revistas internacionais. Se tivéssemos uma revista brasileira de alto impacto na literatura mundial, muito provavelmente os publicariam aqui.
Parece ser uma concorrência desleal…
 
Veja bem, as revistas internacionais são altamente profissionalizadas e tem um padrão de qualidade reconhecido. Além disso, elas têm um aporte financeiro muito grande. Muitas possuem patrocínios, apoios de fundações e governos e ainda cobram dos próprios autores para publicar um artigo. É algo que não fazemos, por exemplo. Nossa revista não cobra nada. Para se ter uma ideia, publicar um artigo em uma revista internacional pode custar mais de 2 a 5 mil dólares para os autores.
 
A Febrasgo sempre se pautou em oferecer essa oportunidade de publicação aos autores brasileiros.. Todas as despesas da publicação da revista são cobertas pela Febrasgo.. até porque, as universidades brasileiras não possuem condições de sustentar uma revista científica. Em geral, são as sociedades de especialidades que o fazem. Não cobramos nada dos autores para publicar. Queremos atrair os jovens pesquisadores , que estão começando agora e que não tem financiamento para apoiar uma publicação de alto custo . Entretanto, não há uma política governamental de apoio às revistas nacionais. O que queremos é esse apoio, esse olhar para os periódicos brasileiros.
A Febrasgo tem feito algo em relação a isso?
 
Sim, esse é um trabalho contínuo. Estamos em constante diálogo com a CAPES. Sugerimos a ela que considere que as revistas nacionais que tenham indicadores de padrão internacional, como por exemplo artigos em inglês, regularidade na periodicidade , número mínimo de fascículos por ano, corpo editorial qualificado e controle de qualidade das edições tenham uma melhor classificação Qualis. Não estamos solicitando auxílio financeiro , é importante dizer. O que queremos é esse apoio para que possamos apoiar cada vez mais os programas de pós graduação.
 
Para você entender melhor, as teses são trabalhos complexos e extensos. Uma mesma tese pode conter uma série de resultados que a impossibilitam de ser publicada na íntegra em um mesmo artigo porque as revistas hoje têm limitações de espaço.. Às vezes ela é “fatiada” para ser publicada em dois ou mais artigos. Com frequência, a melhor fatia tem sido enviada para as grandes revistas internacionais, enquanto as partes menos relevantes ficam para as revistas nacionais. Queremos equilibrar ou mesmo reverter isso. Que as publicações e teses sejam publicada no Brasil, mas para isso precisamos ter revistas de alto padrão e competitivas. Com isso conseguiremos atrair, também, outros autores internacionais, principalmente da América Latina.
 
Quais os próximos passos para a RBGO? É possível que a revista aumente de importância internacionalmente?
 
Acho que o próximo passo é ser uma referência para os autores da América Latina. Hoje, não temos nenhuma revista em GO com fator de impacto relevante na America Latina . Em compensação, temos bons centros de pesquisa no Brasil, Argentina, Colômbia, México, Chile nesta área do conhecimento. Temos total capacidade para nos tornarmos essa referência na região, o que não é pouca coisa. Hoje , dentre as revistas latino-americanas já somos os primeiros no ranking do Google Scholar. Temos publicado e artigos de qualidade que são de nível internacional. Começamos a receber artigos nos últimos meses da Colômbia, Argentina, Turquia, Portugal, Tailândia , Rússia, entre outros. Estamos trabalhando para abrir nosso espaço no cenário internacional.

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