Entrevista HMASP

Falta de estrutura é a maior barreira do neurocirurgião brasileiro.

Para Capitão Porto, chefe do departamento de neurocirurgia do Hospital Militar de Área de São Paulo, a falta de recursos destinados à ciência impossibilita que a área se equipare à de outros países

Capitão Porto é um homem de poucas palavras. A fala concisa e direta combina com a voz grave e fala pausada do telefone. Potiguar de nascença, mas paulistano de adoção após morar 40 dos seus 43 anos de vida na capital paulista, o neurocirurgião entrou para o exército em 2006, seguindo os passos do avô.
Ele nos encontra no departamento de neurocirurgia do Hospital Militar da Área de São Paulo (HMASP). Localizado na Vila Monumento, bairro nobre da Zona Sul da cidade de São Paulo, o hospital é referência em neurocirurgia no Brasil e possui a residência médica mais conceituada do país na área, cujo alto nível de exigência na escolha dos residentes que passam no processo seletivo ajuda a explicar os resultados.
Na entrevista a seguir, Capitão Porto, responsável pela criação da residência médica no HMASP, fala sobre o trabalho do hospital e a forma com que o neurocirurgião é visto no exterior. Leia abaixo.
 
O HMASP é uma referência na área de neurocirurgia no Brasil. O que vocês trabalharam e como foi o processo para se tornar essa referência?
 
O serviço funciona de forma mais estruturada há cerca de 12 anos. Sempre tivemos cirurgias de alta complexidade nas várias subespecialidades da neurocirurgia, mas no Congresso Brasileiro de Neurocirurgia realizado em Curitiba, devido ao expressivo número de trabalhos levados pelos integrantes do serviço, houve um convite por parte da SBN para que fosse instalado um serviço de residência médica aqui. Isso virou um projeto do exército brasileiro e há três anos nós estamos com um programa de residência médica já aberto, em funcionamento, e que já nasceu credenciado tanto pela SBN quanto pelo MEC.
O que diferencia o trabalho de residência do HMASP em neurocirurgia de outros lugares?
 
O Hospital Militar de Área de São Paulo é um hospital nível quaternário do exército brasileiro. Ele trabalha com a parte assistencial, mas também com ensino e pesquisa. Hoje é um hospital que é referência do exército brasileiro em todo território nacional para o tratamento de patologias da ordem neurocirúrgica. Então os quadros mais complexos acabam vindo para cá. Lógico que como todo serviço de residência existe uma seleção por meio de concurso público universal e na entrevista procuramos selecionar candidatos que apresentem características consideradas fundamentais e desejáveis pela banca para que se forme um neurocirurgião. Precisa ter empenho, ser dedicado, um bom nível intelectual, ser muito comprometido, responsável, estudioso… dentre uma série de outros atributos que acabam sendo considerados.
Qual o principal foco do Hospital?
O Hospital é focado em ensino e pesquisa. Então além da neurocirurgia existe residência médica em mais três áreas que são Clínica Médica, Anestesiologia e Urologia. Dentro da neurocirurgia nós priorizamos o tratamento dos pacientes que têm um grau de complexidade maior. Seja na subespecialidade de coluna, na subespecialidade de base de crânio ou na de neurocirurgia vascular, por exemplo. Mas de uma forma geral se atende todo e qualquer caso geral neurocirúrgico.
 
O senhor também trabalha como professor…
Trabalho como professor visitante. Promovendo um intercambio muito forte com os serviços norte-americanos e europeus. Nosso residente também é obrigado a uma vez por anos, passar um mês fora em um desses países, exatamente para vivenciar a rotina de um residente estrangeiro e ver como a neurocirurgia funciona fora do Brasil.
 
Que tipo de informações e técnicas que eles podem aprender lá fora para trazer para o Brasil?
O que nós queremos é que o residente tenha uma visão global da neurocirurgia. Porque não tem mais sentido o residente simplesmente aprender o que o chefe faz. Ele tem que saber como é feito em Portugal, nos Estados Unidos, na Índia, para que desenvolva o próprio jeito de fazer a cirurgia, de maneira segura ao paciente e de forma tecnicamente atualizada, mas respeitando as características que ele próprio como cirurgião tem.
O neurocirurgião brasileiro consegue fazer muito com pouco recursos.
O neurocirurgião brasileiro é muito bem valorizado em países da América do Norte e Europa. A que se deve isso?
 
O neurocirurgião brasileiro de uma forma geral sai da residência com alto número de cirurgias realizadas. Já o treinamento prático é muito grande. Comparado com serviços americanos, por exemplo, onde o residente acompanha muito as cirurgias, mas efetivamente fazer ele faz poucas. Então isso dá ao cirurgião brasileiro uma experiência cirúrgica muito grande. Isso é muito importante. Além disso, devido às condições econômicas do próprio país, o neurocirurgião brasileiro sai de sua formação básica pouco dependente de tecnologia. Pois esta custa caro e não são todos os serviços aqui no Brasil que têm acesso a equipamentos de alto custo, como ressonância intra-operatória, eletroestimulação, neuronavegação, coisas que nos serviços americanos e europeus é uma rotina. Mesmo serviços menores possuem esses equipamentos disponíveis. Então o neurocirurgião brasileiro consegue fazer muito com pouco recursos.
O que falta ao Brasil para poder se equiparar aos melhores centros de pesquisa em neurocirurgia do mundo?
 
De uma forma geral, do ponto de vista de pesquisa, o que falta é uma estruturação. Lá fora departamento de neurocirurgia, por exemplo, o médico neurocirurgião opera. Se ele precisa de uma pesquisa bibliográfica, existe alguém para fazer a pesquisa bibliográfica para fazer isso. Ao final do dia entrega essa pesquisa bibliográfica pronta com os PDF’s dos artigos. Se ele precisa de uma fotografia intra-operatória, o departamento tem um fotógrafo que desce com ele até o neurocirúrgico. Tem um ilustrador, que faz as ilustrações esquemáticas com os principais passos da cirurgia. Aqui no Brasil eu desconheço algum departamento de neurocirurgia que tenha essa estrutura. Isso acaba consumindo o tempo do neurocirurgião, porque ele tem que operar, fazer a pesquisa bibliográfica, tem que ir atrás para fazer a foto… acaba se despendendo uma quantidade de energia e de recursos muito grande.
 
Vocês utilizam bastante a plataforma MedOne no ensino e na pesquisa. Como vocês a utilizam e o que é possível tirar dessa ferramenta?
 
A plataforma MedOne ela veio para agregar e dar retaguarda ao ensino principalmente para os médicos residentes, para os instrutores também. Porque de lá retiramos muito material de apoio, como ilustrações e fotografias intra-operatórios e isso é feito de maneira muito fácil dentro da plataforma. Podemos facilmente exportar para um slide, inclusive com a referência de onde saiu e isso economiza um tempo enorme. Aqui os instrutores frequentemente ministram aulas para os residentes então esse recurso funciona muito bem para montar uma aula mais atraente em termos de imagens. O residente por outro lado usa para estudar e para montar as aulas que ele é obrigado a apresentar para o corpo de instrutores.
Geralmente isso é feito tanto pré, quanto pós-operatório então quando temos a reunião clínica da disciplina que é semanal, esses residentes vêem esses casos que estão internados, sabem da programação cirúrgica e aí eles são estimulados a irem buscar na bibliografia vídeos de cirurgias similares, livros texto que falem daquela patologia específica ou que mostrem o acesso cirúrgico que vai ser empregado, o manejo no pré ou pós-operatório, etc.

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