Pediatras

Como é ser um pediatra no Brasil?

Três autores de pediatria analisam a realidade do pediatra no Brasil e dão seus depoimentos sobre como é trabalhar com a especialidade
Segundo o site da Sociedade Brasileira de Pediatria, o Brasil apresentou um aumento de 10% no número de pediatras. São ao todo, 39.234 especialistas: profissionais que obtiveram seus títulos após conclusão de programas de Residência Médica ou que foram aprovados em exames organizados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). De acordo com o levantamento, o número representa 10,3% do total de especialistas médicos existentes no Brasil.
 
Em comum entre todos esses profissionais as dificuldades estruturais, histórias emocionantes envolvendo seus pacientes (veja nosso texto a respeito aqui) e, claro, a satisfação de exercer uma profissão tão importante.
 
Nesta Semana do Pediatra, a Thieme Revinter convidou três autores de livros voltados para a pediatria para que dessem seus depoimentos sobre como é exercer a profissão no Brasil. Veja a resposta deles abaixo!
Dr. João Gilberto Maksoud Filho
Cirurgião Pediátrico – Autor do livro Manual de Urgências Cirúrgicas em Pediatria
“Faltam equipamentos específicos para pediatria”
Acho que o grande barato, o maior estímulo que um profissional cirurgião pediátrico pode ter é a possibilidade de fazer cirurgias dos mais diversos órgãos. É sentir que você está ajudando não só a criança, mas também todo um núcleo familiar. Isso realmente é muito compensador. Não tenho palavras para descrever como isso é agradável. e estimulante.
 
Há, porém, um lado negativo, mais ligada ao sistema de saúde do que propriamente à profissão. Acontece que a pediatria é uma especialidade muito conhecida, muito cobrada, mas ainda pouco valorizada, por mais incrível que pareça.
 
Acontece que por motivos econômicos muitos hospitais deixaram de ter centros de tratamentos infantis para investir em centros de oncologia e cardiologia para adultos. E há uma diferença enorme nos equipamentos voltados para esse público e o infantil. Essa questão financeira é vista no sistema público ou privado de forma muito clara.
 
Tratar bem crianças em estado grave usando poucos recursos é complicado. Pior: em geral, há um lobby muito grande das indústrias que fornecem equipamentos para que os hospitais deem preferência por máquinas, próteses, medicamentos voltados para adultos. Sem interesse em desenvolver coisas específicas para a pediatria, isso cria uma dificuldade enorme para a área.
 
Drª. Maria Valeriana Leme de Moura-Ribeiro
“Estamos perdendo essas pessoas e a capacidade de fixar grandes pensadores no Brasil”
Vejo que a pediatria no Brasil, em especial a neurologia, carece de mais pesquisadores e estudiosos. Não quer dizer que não “criamos” cabeças pensantes na área no Brasil. Pelo contrário, temos muitos pesquisadores de excelência formados durante as décadas. Mas acontece que quase sempre os nossos maiores pesquisadores migram para países europeus ou para a América do Norte.
 
Estamos perdendo essas pessoas e a capacidade de fixação desses indivíduos, o que claramente é muito negativo para a ciência no brasileira.
 
De forma geral, os profissionais envolvidos na pediatria trabalham diariamente para manter a qualidade profissional junto à população. Principalmente para uma população que está envelhecendo e empobrecendo ao mesmo tempo, como é a brasileira.
 
Além disso, não dá para analisar o trabalho de quem é envolvido com a pediatria sem falar do SUS e da formação dos médicos no Brasil. Há claramente uma concentração dos recursos financeiros e, consequentemente, dos investimentos feitos na especialidade nas regiões sul-sudeste.
 
Tanto que é muito comum ver médicos saindo de outros estados para fazer residência nessas regiões, onde se encontram os principais programas para residentes e decidindo não voltar. Seja por questões pessoais ou por motivos profissionais.
 
Isso, veja bem, cria um desequilíbrio. Sem incentivo por parte do governo os especialistas acabam se estabelecendo para quem a população que tem mais recurso financeiro do que enfrentar uma situação de condição de trabalho escassa no interior do Pará.
 
Além disso, muitos deixam de ser profissionais do SUS. Eles preferem trabalhar como particular. Muitas vezes sem nem plano de saúde, por ser mais vantajoso financeiramente.
Dr. João Leite de Carvalho
Pediatra autor do livro Caderno de Um Pediatra
“Não tem glamour, não dá status. Não se enriquece com a pediatria”
Eu dediquei vários anos da minha vida a isso à pediatria do hospital público. Deixei de ganhar dinheiro para ter essa experiência e, sinceramente, eu nunca me arrependi.
 
E não é fácil. Porque você não tem o retorno financeiro que muita gente acha que vai receber. Não tem glamour, não dá status. Não se enriquece com a pediatria. E isso eu acho que é a principal razão pelo qual os estudantes de medicina parecem fugir da pediatria. Preferem investir o tempo e dinheiro em outras especialidades.
 
Para você ter uma ideia, na minha turma de faculdade a maioria queria ser pediatra. Hoje você não vê o apelo nos jovens profissionais. E isso passa pela formação dos médicos que hoje é sofrível.
Com todo respeito, nada contra quem se formou em faculdades particulares. A questão é que tem muita faculdade que não possui um hospital universitário. Como pode isso? Não dá. E faz sentido, porque o jovem médico se forma pagando 10 mil reais por mês, não vai fazer clínica para ganhar 40, 50 reais uma consulta, com um trabalho que traz uma responsabilidade muito maior.
 
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