O que mudou na pediatria nos últimos trinta anos?

Perguntamos a três autores que são referências na área de pediatria o que mudou nas últimas três décadas. Veja a resposta deles!

Nesta semana, mais precisamente no dia 07 de julho, comemora-se o Dia Nacional do Pediatra.
 
Para comemorar a data deste profissional tão importante, convidamos três grandes autores Thieme Revinter, profissionais que são referências nas suas respectivas áreas, para falar sobre as maiores mudanças envolvendo a pediatria nesses últimos trinta anos.
 
Veja o depoimento deles abaixo!
Dr. João Leite de Carvalho
Pediatra autor do livro Caderno de Um Pediatra
Em primeiro lugar, é crucial entender o contexto em que se inseriam as enfermidades no início da prática hospitalar. Isso porque, até 20 anos atrás as enfermidades hospitalares tinham relação direta com a desnutrição.
 
E o que contribuiu muito com a redução da desnutrição foi a conscientização da importância do aleitamento materno. Nas décadas de 50 e 60 era comum que as mães não amamentassem seus filhos como deveriam. Esse comportamento seguiu até os anos 80, por conta de um lobby muito forte da indústria do leite de vaca. Para se ter uma ideia, era comum que as empresas distribuíssem latas de leite em pó aos médicos, para que estas fossem dadas como amostra grátis às famílias.
Esse estímulo às mães ao aleitamento materno, além da melhoria das condições socioeconômicas, fez com que a desnutrição infantil no Brasil diminuísse drasticamente.
Outra grande mudança foi a erradicação das doenças através da vacinação. Sarampo, coqueluche, varíola, meningite… Todas essas eram doenças quase corriqueiras que arrasavam as crianças, principalmente aquelas que já estavam desnutridas. Muitas vezes, quando o sarampo ia embora, a criança estava em péssimas condições de saúde, o que levava à outras complicações graves.
 
Somado a isso, algo que revolucionou a pediatria no Brasil foi a invenção do soro da OMS. Isso porque, assim como a desnutrição, a desidratação também era um problema grave na população infantil. Imagine você tratar uma criança diagnosticada com difteria, já subnutrida e sofrendo ainda com a desidratação comum que acomete esses pacientes?
Você acredita que na década de 80 não havia sequer um leito de UTI infantil no estado do Rio de Janeiro?
Na época, para hidratá-las era preciso colocar soro direto na veia. Foi o soro da OMS, que possibilitou a hidratação via oral, tornando-se mais simples e rápida a reidratação desses pacientes. Hoje esse soro é vendido com nomes comerciais, distribuído nos postos de saúde e já é tão arraigado na cultura popular que as próprias mães já possuem em casa.
Como é agora?

 

Hoje eu vejo que as demandas são outras. A preocupação agora são com as viroses, doenças tropicais, como a dengue, e as neoplasias. Além dessas, as enfermidades voltadas às especialidades. Na verdade, o simples fato de haver especialidades em pediatria já é um grande avanço.
 
Você acredita que na década de 80 não havia sequer um leito de UTI infantil no estado do Rio de Janeiro? Era muito complicado. Hoje você possui essas especialidades voltados para a pediatria, o que faz toda a diferença, uma vez que alguns procedimentos e formas de lidar com o paciente são completamente diferentes do tratamento destinado a um adulto.
Drª. Maria Valeriana Leme de Moura-Ribeiro
Eu me formei em 1960, quando sequer existia a neurologia pediátrica. Então eu posso dizer que vi o surgimento dessa especialidade no Brasil. Na época, a preocupação da neurologia ficava por conta das doenças infecciosas. Era uma época em que a meningite não só matava muitas crianças, como também deixava graves sequelas .
 
A vacinação era precária, não existia para meningite por exemplo, e não eram raras as complicações que levavam a problemas neurológicos em crianças, principalmente na primeira infância. Paralisia mental, convulsões e deficiências mentais muitas vezes estavam diretamente ligadas à essas complicações. Além do mais, os pediatras não davam conta de tratar das doenças nutricionais, gastrointestinais, renais ou pulmonares para poder focar nas patologias cerebrais. Ainda lutávamos para ter o básico de condições nas especialidades.
 
Por isso, o aumento da prevenção de doenças também facilitou muito. A divulgação da informação sobre importância do aleitamento materno melhorou a nutrição das crianças. Isso por si só retirou uma demanda enorme dos pediatras na época, que por sua vez passaram a focar na formação das especialidades.
Os pediatras não davam conta de tratar das doenças nutricionais, gastrointestinais, renais, pulmonares para poder focar nas patologias cerebrais. Ainda lutávamos para ter o básico de condições de trabalho.
Mas a mudança maior, sem dúvidas, foi na parte tecnológica. Praticamente saímos da estaca zero da neurologia pediátrica à uma revolução envolvendo a especialidade no Brasil. Tivemos um boom de novos profissionais e de aprendizado em termos de diagnósticos e tratamentos.
 
Claro, facilitou demais o fato de que a partir dos anos 70 tenha ficado clara a necessidade de ter profissionais voltados para a neurologia pediátrica. Isso não foi fácil, se arrastou por anos. Mas finalmente começaram a surgir escolas que tinham uma programação específica para dar conhecimento e ajudar o pediatra com relação às sequelas neurológicas das crianças, oriunda de alguma patologia.
 
Essa mudança de paradigma sobre a necessidade de profissionais especializados foi fundamental para todo e qualquer avanço que tivemos nas décadas seguintes.
Praticamente saímos da estaca zero da neurologia pediátrica à uma revolução envolvendo a especialidade no Brasil. Tivemos um boom de novos profissionais e de aprendizado no diagnósticos e tratamentos.
Como é hoje?

 

De forma geral, o Brasil possui capacidade de atender bem qualquer criança com uma condição de neurológica grave, do ponto de vista de profissionais capacitados e conhecimentos. O que falta é uma distribuição desses profissionais pelo país. Hoje há uma concentração grande na região sul-sudeste em termos de recursos.
 
Mas temos tratamentos, assistências a neonato, berçários com atendimento especializado…. A gestante tem uma cobertura de muito melhor qualidade que nas décadas de 60 e 70. O Brasil hoje tem sim capacidades de oferecer um atendimento de excelência na área.
Dr. João Gilberto Maksoud Filho
Cirurgião Pediátrico – Autor do livro Manual de Urgências Cirúrgicas em Pediatria
A tecnologia ajudou muito a cirurgia pediátrica. Tivemos avanços tecnológicos que nos permitiram fazer cirurgias usando técnicas minimamente invasivas que não seriam sonhadas há 30 anos atrás.
 
Mais que isso, os avanços nos tratamentos das crianças em estado crítico permitiu uma sobrevida maior para pacientes com doenças graves.
 
O cirurgião pediátrico de hoje em dia possui muito mais conhecimento e recursos para fazer com que esse paciente saia do hospital e tenha uma vida minimamente independente ou com o mínimo de sofrimento. Há trinta anos atrás, conseguir isso era muito mais difícil.
O cirurgião pediátrico de hoje em dia possui muito mais conhecimento e recursos para fazer com que esse paciente saia do hospital
Tivemos avanços gerais no tratamento de transplantes, com desenvolvimento de técnicas e drogas para diminuir rejeição de órgãos, permitindo uma maior sobrevida para pacientes que tiveram rins e fígados transplantados e que crianças fossem tratadas mais precocemente. Isso também foi fundamental, porque tornou muito melhor a qualidade de vida das crianças.
 
Como é hoje?

 

Hoje, até pelo avanço tecnológico pelo qual o mundo, não só o Brasil, passou nas últimas três décadas, o cirurgião pediátrico tem uma formação muito melhor. A formação na residência na especialidade é fundamental. Também é importante dizer que a capacitação em cirurgia pediátrica evoluiu muito em temos de quantidade e de qualidade durante esse período.
 
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