Alegrias e tristezas de quem dedicou a vida à pediatria

Três autores pediatras dão seus depoimentos sobre as emoções que viveram dedicando-se à profissão

A medicina é uma profissão capaz de gerar grandes emoções e histórias. Essa característica não é diferente na pediatria. Afinal, se ter a saúde e vida de uma criança nas mãos é uma grande responsabilidade, também pode ser o motivo de histórias emocionantes.
 
Para comemorar o Dia do Pediatra, convidamos três autores de livros de pediatria para compartilhar um pouco de suas respectivas vivências dentro da profissão. Abaixo eles contam algumas de suas maiores alegrias (e tristezas) que apenas essa profissão tão importante oferece.
Dr. João Leite de Carvalho
Pediatra autor do livro Caderno de Um Pediatra
Maior alegria
A minha maior alegria como pediatra se deu por caso. A minha filha, levou meu netinho de 6 anos à uma consulta. No consultório ela viu que a médica estava com o meu livro em cima da mesa. Ao final da consulta, ela perguntou à médica se esta havia gostado do livro e conversaram longamente sobre o assunto.
 
No mesmo dia, a minha filha chegou em casa e me pediu uma cópia do livro para levar à pediatra na próxima consulta. Nesse dia, a médica escreveu no próprio receituário que aquele livro estava a ajudando muito no dia-dia e que estava agradecida. Guardo isso com muito orgulho, por saber que meus netos têm pediatras que usam a minha obra. Fora a satisfação de estar na idade que eu estou e ter a experiência que eu tenho.
Maior tristeza

 

A maior tristeza foi acompanhar uma criança chamada Maria Eduarda, uma menina que tinha uma doença crônica no coração.
 
Ela tinha 9 anos e portava uma anemia que não se sabia a causa. Quando a examinei eu escutei um sopro no coração e percebi que era grave. Fiz um ecocardiograma e descobrimos que ela tinha uma dupla lesão cardiovascular, consequência de uma doença reumática o qual também era portadora.
 
Devido a gravidade do caso, era preciso que o risco beneficio valesse a pena então só fizemos a cirurgia quando esta era o único caminho de ela sobreviver. Ela já tinha 16 anos quando operou e só o fez porque, caso não o fizesse, não sobreviveria mais um mês. A cirurgia foi um sucesso. Mas no final… Bem, no final, já no pós operatório, ela teve um AVC e veio a óbito. Foi uma decepção muito grande. Fiquei muito ligado à ela e aquilo mexeu muito comigo.
O que te move?
Paixão. Sou apaixonado por tudo o que faço. Sou apaixonado por música. Essa paixão pela vida, pelo meu trabalho que me faz continuar e ter prazer com que eu faço.

Drª. Maria Valeriana Leme de Moura-Ribeiro
Sua maior alegria?

 

Minha maior alegria foram as minhas conquistas. Eu nem esperava alcançar tudo o que consegui alcançar. Agora com 83 anos, ainda estou produzindo, isso é muito gratificante e não consigo não remontar a minha história até aqui. Lembro que quando eu tinha 14 anos todas as meninas da minha idade queriam ser professoras primárias. Já eu tinha horror a isso. Eu queria ser nutricionista, fazer algo diferente.
 
Até que um dia eu fui ao médico da família. E esse médico foi o primeiro a colocar na minha cabeça que eu deveria ser médica como ele. Ele enxergou algo a mais em mim que nem eu encontrava. Eu abracei aquela ideia e decidi seguir a carreira. Aquilo ficou em mim e acho que foi fundamental, talvez tenha sido o dia mais importante da minha vida, certamente o da minha carreira.
 
Sua maior tristeza?

 

Eu sempre fui muito profissional e coloquei isso desde cedo como uma prioridade na minha vida. Sinto que eu mergulhei demais nesse quesito e isso me fez perder algumas coisas. São escolhas, claro, mas acho que essa é a minha maior tristeza. Eu poderia ter feito de outra forma, dado mais atenção à minha vida pessoal.
 
O que te move?

 

A genética me move (risos). Acho que é isso que explica. Enquanto eu tiver vitalidade e condições para permanecer escrevendo e produzindo eu irei continuar.
Dr. João Gilberto Maksoud Filho
Cirurgião Pediátrico – Autor do livro Manual de Urgências Cirúrgicas em Pediatria
Maior alegria

 

Aconteceu quando eu encontrei, depois de vinte e três anos, um paciente meu que tratei de uma atresia de esôfago (uma afecção congênita que se caracteriza pela ausência de um segmento do esôfago).
 
Nesses casos é normal você acabar ficando muito próximo da família, criar laços. Você vê aquela pessoa crescer, se desenvolver, então é comum você ser visto como alguém da família.
 
E naquele dia esse paciente veio ao meu consultório trazer o convite de casamento dele. Aquilo foi uma alegria muito grande, sabe? A constatação de que eu havia ajudado uma criança de uma situação que na época era tão grave que não sabíamos se ele chegaria à idade adulta. Ser lembrado disso, receber esse convite 23 anos depois, foi uma emoção muito grande. É muito gratificante.
 
Maior tristeza
A maior tristeza foi com o caso de um garoto que eu tratei desde quando ele era ainda muito pequeno. Ele foi submetida à muitas cirurgias durante a infância, passou boa parte da vida no hospital. Para se ter uma ideia ele se alimentava um pouco pela boca, mas mais por cateter. Nós conseguimos fazer com que ele se desenvolvesse até os 9 anos de idade. Então ele teve uma infecção muito grave e não resistiu.
 
Esse caso é o que eu mais lembro. Porque era um menino maravilhoso, uma família unida, que tinha uma dedicação enorme com a criança. Eles conseguiram fazer com que ele saísse do hospital e fosse para casa. Construíram uma espécie de UTI em casa, para que ele não precisasse ficar internado. Foi muito complicado e eu senti muito. Mas são coisas inerentes da profissão.
O que te move?

 

É a sensação de fazer a diferença. De poder fazer cirurgias que podem salvar a vida de uma criança e dar alegria à uma família. Isso não tem preço realmente.
 
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