Qual o atual cenário de vacinação contra o HPV?

A transmissão da infecção pelo HPV ocorre principalmente por via sexual ou vertical (no momento do parto) por meio de abrasões microscópicas na mucosa ou na pele da região anogenital. Desta forma, o uso de preservativos protege apenas parcialmente do contágio pelo HPV, visto que este pode ocorrer pelo contato com a pele da vulva, região perineal, perianal e bolsa escrotal. A principal forma de prevenção primária para o câncer de colo uterino é a vacinação contra o HPV.

A infecção pelo HPV é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo. Atualmente, estima-se aproximadamente 12% das mulheres no mundo todo sejam portadoras assintomáticas de algum tipo de vírus HPV, sendo que a maior prevalência se encontra na região da África subsaariana (24%).

Em todo o mundo, o câncer de colo de útero é o quarto tipo de câncer mais prevalente em mulheres, representando 7,5% de todas as mortes femininas por câncer (cerca de 311 mil a cada ano), com maioria ocorrendo em países de baixo e médio desenvolvimentos.

 

A importância das medidas preventivas

 

Projeções da IARC (International Agency for Research on Cancer) mostram que se não forem adotadas medidas preventivas efetivas, o câncer de colo uterino elevará o número de mortes para 460 mil por ano, em 2040, aumento em sua maior parte detido pelos países de baixa e média rendas. Os controles abrangentes para esse tipo de doença incluem três níveis de prevenção: a prevenção primária, consistindo na vacinação contra o HPV; a prevenção secundária, em que se utiliza a triagem (Papanicolaou) e tratamento de lesões pré-cancerosas; e a prevenção terciária, contando com o diagnóstico e tratamento do câncer de cervical invasivo, além dos cuidados paliativos.

Como já dito anteriormente, a principal forma de prevenção primária para o câncer de colo uterino é a vacinação contra o HPV. Entretanto, apesar de os HPVs de baixo risco oncogênico não estarem associados ao câncer cervical, eles causam 90% das verrugas genitais que demandam esforços para o tratamento, são exemplos os HPV-6 e 11, por isso foram incluídos no esquema vacinal, enquanto que globalmente, os tipos 16 e 18 são responsáveis por 70% dos casos de câncer cervical, e , somados aos tipos 31, 33, 45, 52 e 58, são responsáveis por aproximadamente 90% de todos os casos (a contribuição de alguns desses tipos no câncer cervical varia de acordo com as  diferentes regiões do planeta).

 

Os tipos de vacinas profiláticas contra o HPV

 

Atualmente, são disponibilizadas e licenciadas no mercado três vacinas profiláticas contra o HPV, no qual sua aplicação em programas nacionais de imunização se encontra distribuída atualmente em 91 países. As vacinas contra o HPV foram desenvolvidas utilizando a tecnologia com base na natureza de automontagem da proteína capsidial L1 do vírus. Essa tecnologia de produção de vacinas é chamada de “Partículas semelhantes a vírus”, ou VLP (da sigla em inglês viral-like-particles) e conta com a administração do capsídeo viral vazio na forma de proteína, ou seja, sem o DNA viral, tornando-a mais segura do que as vacinas obtidas por vírus atenuados. Esse sistema vacinal visa imunização contra os antígenos presentes no capsídeo viral, permitindo a detecção e combate do vírus logo após a entrada deste no organismo.

O mediador primário da proteção pelas vacinas anti-HPV é a produção de anticorpos neutralizantes pelo organismo, caracterizando uma resposta imune hormonal. Estudos demonstram que estes anticorpos persistem no organismo por pelo menos 10 anos após a imunização (com todas as doses recomendadas) e em níveis 10 vezes mais altos do que a resposta provocada pela infecção natural pelo HPV. Tais estudos continuam em andamento a fim de acompanhar ao longo do tempo a proteção dos indivíduos conferida pelas vacinas.

O desenvimento das vacinas ao longo do tempo

 

A primeira geração de vacinas foram as quadrivalente (4vHPV) – comercializada sob o nome de Gardasil, pela empresa Merck – e a bivalente (2vHPV) – comercializada sob o nome de Cervarix, pela empresa GlaxoSmithKline. A primeira fornece proteção contra os HPV de tipos 6, 11, 16 e 18, enquanto a segunda fornece proteção apenas contra os HPV-16 e 18. Em 2014, uma segunda geração de vacinas foi licenciada pelos Estados Unidos (Food and Drug Administration – FDA). Esta nova versão vacinal, também produzida pela Merck, é denominada de nonavalente, protegendo contra os 9 tipos principais de HPV (16, 18, 31, 33, 45, 52, 58, além dos tipos 6 e 11).

A fase III dos testes clínicos da vacina nonavalente demonstrou que está é segura e altamente eficiente contra a infecção viral e lesões genitais pré-cancerosas em himens e mulheres, reportando uma eficiência superior a 96% na proteção contra  lesões de alto grau cervicais, vulvar e vaginal em mulheres sem contato prévio com o vírus que tomaram três doses vacinais.

A vacina contra o HPV é uma das mais caras existentes no mercado, e esse efeito é sentido principalmente entre os países subdesenvolvidos, justamente os que mais se beneficiaram de sua inclusão nos programas de vacinação. É esperado para o futuro que outras empresas produzam também a vacina, aumentando assim a concorrência e, consequentemente, reduzindo seu custo. Além disso, especialistas defendem a produção a baixo custo em países em desenvolvimento.

 

O atual cenário de vacinação no Brasil

 

No Brasil, a vacina contra o HPV se encontra entre os itens de maior custo ao SUS (Sistema Único de Saúde/Ministério da Saúde). A vacina quadrivalente foi aprovada pela Anvisa, em 2006 – em um movimento de pioneirismo mundial – e incorporada ao calendário de vacinação nacional, em 2014.

Atualmente a vacinação contra o HPV é aplicada em meninas, entre 9 e 14 anos de idade e em meninos entre 11 e 14 anos de idade, com esquema vacinal de duas doses (0 e 6 meses). Esse esquema vacinal protege contra os quatro subtipos virais, com 98% de eficácia. Além disso, desde 2018 o SUS ampliou a vacinação, com cobertura também para grupos  com condições clínicas especiais (imunodeprimidos), como indivíduos (de 9 a 26 anos de idade) vivendo com HIV/Aids, bem como para aqueles submetidos a transplante de órgãos e pacientes oncológicos, cujo esquema de vacinação contra com 3 doses (0,2 e 6 meses). Na rede privada, a vacina quadrivalente pode ser encontrada a preços relativamente altos, sendo indicadas três doses para mulheres entre 9 e 45 anos de idade em um esquema vacinal de 0 (zero), 2 (dois) e 6 (seis) meses.

Mesmo possuindo elevado custo aos cofres públicos, a vacinação se faz necessária em razão da alta disseminação viral nas populações do mundo inteiro. No Brasil, um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde, em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal, em 2017, revelou que 54,6% dos jovens entre 16 e 25 anos possuem algum tipo de HPV. Sendo que em 38,4% destes, trata-se de subtipos de alto risco. Além disso, os efeitos positivos da vacinação anti-HPV ao longo do tempo já começam a ser sentidos em outros países.

 

Os programas de vacinação ao redor do mundo

 

Um estudo comparou mulheres escocesas não vacinadas (nascidas em 1988) às mulheres vacinadas no país (nascidas entre 1995 e 1996) e constatou que a vacina, introduzida, em 2008, reduziu a incidência do câncer de colo de útero nas mulheres em 89%. Além disso, as mulheres não vacinadas no país também se beneficiaram do programa de vacinação pelo efeito conhecido como “imunidade rebanho”, em que indivíduos não vacinados efetivamente protegidos de uma doença contagiosa, quando uma boa parte da população é vacinada, visto que o vírus não consegue se espalhar na população. Reduções semelhantes foram relatadas na Holanda, onde é utilizada a vacina bivalente.

A considerável redução nos tipos de HPV mais carcinogênicos tem implicações claras no combate ao câncer cervical em países que adotam a imunização anti-HPV nos programas nacionais. Como resultado disso, um estudo realizou uma estimativa (com base em um modelo matemático dinâmico) dos impactos clínico e econômico da vacina nonavalente em mulheres de Singapura, quando administrada ainda na fase escolar.

 

Confira o conteúdo completo no livro Citologia Clínica do Trato Genital FemininoVisite nosso site e compre agora!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *